Uma pandemia de violência dentro da pandemia de um vírus

Embora subnotificados, em função da redução do atendimento nas Delegacias da Mulher, números de violência doméstica registram aumento de mais de 70% no Estado

Relacionar pessoas a números é sempre uma questão difícil. Ainda que seja necessário quantificar, tornar-se parte de uma estatística é perder um pouco da humanidade. Hoje, no Brasil e no mundo, vemos aumentar os números de mortes pela Covid-19 e, somada a esta pandemia, vivenciamos outra, mas dentro dos lares: a violência doméstica. Em 2020, os casos de feminicídio tiveram um aumento de 73% no Rio Grande do Sul. Somente em março deste ano, 4.640 ameaças, lesões corporais, estupros e feminicídios tentados e consumados foram registrados no Estado. Ações de conscientização, orientação e apoio têm buscando encontrar as pessoas por trás das tabelas.

A professora Dra. Josiane Petry Faria, coordenadora do projeto de extensão Projur Mulher e Diversidade da Universidade de Passo Fundo (UPF), aponta que um dos cenários mais críticos está na América Latina. Segundo ela, apenas em 2019 foram registrados 3.800 feminicídios e pesquisadores estimam um aumento bastante significativo para este ano.

Os dados do Estado para 2020 também são assustadores. De acordo com informações da Secretaria de Segurança Pública, somente em março foram registradas 2.689 ameaças, 1.793 lesões corporais, 123 estupros, 11 feminicídios consumados e 23 tentativas. Em Passo Fundo, a situação não é diferente. Entre janeiro e março deste ano, foram quase 400 registros das mesmas situações: ameaças, lesões, estupros, feminicídios tentado e consumado.

Josiane lembra que a vizinha Argentina registrou um aumento de 67% nos casos e a Colômbia, chegou a 130%. Conforme ela, os casos de abuso sexual são os que mais crescem. Para ela, hoje vivemos uma pandemia dentro de uma pandemia, visto que o isolamento social força a convivência entre vítima e agressor. “O isolamento social coloca a mulher no espaço onde ela está mais insegura, sobretudo no Brasil. Se as ruas são perigosas, quando se trata da violência contra a mulher, o local onde ela é mais vulnerável é a sua residência, presa com o agressor, sem poder sair”, ressalta.

Orientar, informar e tentar estar perto

Sem a possibilidade do contato pessoal, as ações estão sendo mais estratégicas e visam levar orientações, informações e apoio para mulheres que estão vivenciando situações de insegurança em casa. De acordo com Josiane, a Delegacia da Mulher de Porto Alegre está iniciando um atendimento psicológico por telefone com as mulheres. Para sanar a redução do atendimento, tem-se orientado que as mulheres acessem o site e façam a denúncia online. Contudo, para a professora, esse contato não é o mais adequado. “Imaginemos essa realidade: a mulher em casa, com o agressor, tentando conseguir ficar de 20 a 30 minutos em frente ao computador, acessando um site para fazer uma denúncia contra uma pessoa que está, provavelmente, ao lado dela. Não é fácil e, por isso, temos trabalhado para entrar nos lares de outras maneiras”, pontua.

A coordenadora lembra que, para minimizar essa realidade, a Polícia Civil tem feito diversas operações no Estado executando ordens de prisão aos agressores. Além disso, os pedidos de medida protetiva também têm sido tratados em caráter de urgência e, quando deferidos, expedidos em até 24 horas.

ONGs, instituições e projetos, como o Projur Mulher e Diversidade, continuam desenvolvendo suas atividades e atendimentos por meio das redes sociais. Josiane destaca que dois novos projetos estão em andamento para manter o contato com o público alvo, repassando informações, esclarecimento e apoio às mulheres. “Por meio de vídeos, lançados diariamente em nossas redes, e também com lives com temáticas importantes para serem abordadas, estamos tentando fazer esse contato, nos aproximar delas e fazer com que se sintam, ao menos, ouvidas”, frisa.

Canais de comunicação

  • bCentral de Atendimento à Mulher em Situação de Violência – 180
  • Brigada Militar – 190

Assessoria de Imprensa/ Universidade de Passo Fundo

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