Doença silenciosa afeta uma a cada três mulheres

No mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, é preciso ressaltar a importância dos cuidados com a saúde feminina, sobretudo quando se trata de uma doença progressiva e silenciosa como a osteoporose. Estima-se que uma a cada três mulheres acima dos 50 anos terá uma fratura osteoporótica, especialmente depois da menopausa, quando ocorre uma queda significativa na produção de estrogênio. O hormônio age como um protetor da massa óssea e seu baixo nível é um dos grandes responsáveis pela diminuição abrupta da densidade óssea.

De forma imperceptível, a osteoporose vai se instalando sem apresentar sintomas ou dor, o que torna o seu diagnóstico tardio, geralmente após a ocorrência de uma fratura. Por se tratar de uma doença sem agravantes iniciais, é preciso incluí-la nos exames de rotina, no qual, através do histórico do paciente e dos possíveis fatores de risco, pode-se chegar ao diagnóstico. Para explicar como se prevenir dessa doença que atinge cerca dez milhões de brasileiros, o ortopedista e traumatologista do IOT, Vinícius Canello Kuhn, fala em entrevista sobre a importância da prevenção ainda na juventude.

 

O que é osteoporose? Quais os sintomas da doença?

Dr. Vinícius Canello Kuhn: Osteoporose é uma doença sistêmica do esqueleto, sendo a doença osteometabólica mais frequente. Ela se caracteriza pela presença de baixa massa óssea e deterioração da microarquitetura (qualidade) óssea, consequentemente aumentando a fragilidade do osso e o risco de fraturas. Em geral, a osteoporose é uma doença sem sintomas e, muitas vezes, é diagnosticada somente após sua consequência mais grave, que é a fratura. Sinais de alerta são dores nas costas frequentes e de difícil tratamento, perda de estatura e aumento da cifose torácica (curvatura do dorso), que podem representar fraturas osteoporóticas da coluna, mesmo que não tenha havido uma queda ao solo ou um trauma.

 

Quais os fatores de risco para o desenvolvimento da doença?

Dr. Vinícius: Os principais fatores de risco são idade acima de 65 anos, principalmente do sexo feminino, histórico familiar (nos pais) de fratura por osteoporose, uso de glicocorticoides, artrite reumatoide, tabagismo, alcoolismo, deficiências estrogênicas, baixo peso, ingestão inadequada de cálcio na dieta e baixa exposição solar. Ainda, inúmeras doenças crônicas e medicações de uso contínuo podem predispor a perda óssea e devem ser avaliadas nesse contexto.

 

É possível prevenir a osteoporose e fraturas? Como?

Dr. Vinícius: Sim. Inicialmente, precisamos retirar os fatores de risco para fraturas: cessar o tabagismo e diminuir a ingestão de bebidas alcoólicas; manter ambiente seguro – instalar corrimões, usar calçados antiderrapantes, cuidar irregularidades no chão, tapetes, degraus, ter sempre boa luminosidade e estar com boa acuidade visual.

Os pilares fundamentais na prevenção de osteoporose e fraturas:

1. Atividade física regular: exercícios para melhorar a força muscular e o equilíbrio servem tanto para evitar quedas quanto para estimular a formação óssea. As atividades serão sempre adaptadas conforme a capacidade de cada um.

2. Ingestão adequada de cálcio: sempre que possível, adequamos através da alimentação, e as principais fontes de cálcio na dieta são o leite e seus derivados. Quando a ingestão adequada não é possível, a suplementação com cálcio é indicada.

3. Níveis adequados de vitamina D: a melhor forma de mantermos níveis adequados é através da exposição regular ao sol. A dosagem de vitamina D no sangue poderá definir aqueles que necessitam suplementação.

É importante destacar que a prevenção inicia desde a infância. É dessa fase até o início da fase adulta o período no qual nós adquirimos a massa óssea para toda a vida. Portanto, quanto melhor formarmos o osso na juventude, menores serão as consequências da perda óssea com o envelhecimento.

 

Como funciona o tratamento da osteoporose?

Dr. Vinícius: O tratamento consiste das medidas de prevenção já citadas, adicionadas a medicamentos específicos para a doença. Hoje, existem no mercado várias classes de medicamentos, que mostram diminuir o risco de fraturas em até 70% em populações determinadas. Há opções de comprimidos diários, semanais ou mensais, como também injeções subcutâneas diárias ou a cada seis meses, ou infusões endovenosas, que são realizadas somente uma vez por ano. Mais importante que a forma de uso da medicação é a sua manutenção, pois o esquecimento de doses diminui muito a eficácia do tratamento. No momento em que o tratamento é indicado, sua duração é por toda a vida. Assim como tratamos pressão alta, diabetes e problemas cardíacos por toda a vida, o tratamento da osteoporose é crônico!

 

As mulheres são as mais afetadas? Por quê? Quais os dados sobre esta questão?

Dr. Vinícius: Sim. Pois a mulher sofre uma queda abrupta nos níveis hormonais no período após a menopausa. O hormônio estrogênio age como protetor da massa óssea. Quando seus níveis caem, ocorre uma perda rápida da massa óssea, principalmente nos primeiros anos.  Estima-se que uma a cada três mulheres acima dos 50 anos terá uma fratura osteoporótica, assim como um a cada cinco homens. Cerca de 98% das fraturas de quadril ocorrem a partir dos 35 anos de idade; 90% após os 50 anos. Destas, 80% ocorrem em mulheres. Em mulheres após os 45 anos, a osteoporose pode ser responsável por mais dias de internação que infarto, diabetes e câncer de mama.

 

Qual a recomendação diária de consumo de cálcio? Em que alimentos o cálcio é encontrado?

Dr. Vinícius: A recomendação diária para adultos é de 1000 – 1200 mg de cálcio por dia. O cálcio é encontrado principalmente nos alimentos lácteos, como o leite, iogurte e queijo. Outros alimentos como feijão, couve, brócolis e espinafre também são boas fontes de cálcio. O consumo de cerca de três porções de produtos lácteos por dia, aliados a uma dieta balanceada, fornece a quantidade adequada de cálcio diário. ALERTA: a ingestão média de cálcio do brasileiro é de 400mg por dia, ou seja, apenas 1/3 do recomendado.

 

Muitas pessoas estão reduzindo ou cortando o consumo de lactose da dieta, mesmo sem apresentar intolerância ou alergia. Isso pode acabar elevando o número de casos de osteoporose? 

Dr. Vinícius: Sim. Países com alto consumo de laticínios apresentam melhores indicadores ósseos que regiões com baixo consumo. Crianças e adultos que não ingerem leite têm maior risco de fratura do que congêneres que ingerem leite. Uma conferência do National Institute of Health concluiu que a maioria das pessoas que se autoidentificam como tendo intolerância a lactose, não tem intolerância clínica. Portanto, é importante que, na presença de sintomas ao consumir laticínio, um especialista na área seja consultado. Independentemente de ter ou não intolerância ou alergia a produtos lácteos, sempre que a ingestão de cálcio através da dieta for insuficiente, o aporte diário deverá ser fornecido através de suplementação alimentar.

 

Quais as patologias ortopédicas decorrentes da osteoporose?

Dr. Vinícius: O ortopedista é quem trata a principal consequência da osteoporose, que é a fratura. Estas fraturas podem seguir uma sequência de gravidade, a qual chamamos de cascata fraturaria: o primeiro osso a quebrar é o do punho, seguido da coluna e após do quadril, sendo essa última a mais grave. Isso nos mostra que a presença de uma fratura osteoporótica prevê a ocorrência de novas fraturas. Em suma, toda fratura acima dos 50 anos de idade e fraturas por traumas banais merecem, no mínimo, investigação. O grande problema das fraturas osteoporóticas, além da fratura em si, são as consequências a partir da fratura. Sabe-se que até 20% das pessoas que sofrem uma fratura de quadril necessitam de um longo período de cuidados de enfermagem e que apenas 40% retornam aos seus níveis de independência de vida anteriores à fratura, mesmo com o tratamento adequado.

 

Atualmente, a osteoporose é considerada um problema de saúde muito comum em todo o mundo. Por quê?

Dr. Vinícius: Principalmente devido ao aumento da expectativa de vida da população e o fato de que a idade avançada é um dos principais fatores de risco para osteoporose. Para 2050, projeta-se um aumento de 310% nas fraturas de quadril nos homens e 240% nas mulheres. No Brasil, isso representará uma fratura de quadril a cada três minutos. Apesar de inúmeros dados, no nosso país em apenas uma a cada três fraturas de quadril é feito o diagnóstico de osteoporose e apenas uma de cinco dessas terá algum tratamento. O impacto da osteoporose é grave, podendo ser maior que vários tipos de câncer e comparável ao da artrite reumatoide, asma e hipertensão. Portanto, a prevenção, diagnóstico e tratamento são primordiais.

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