Após tragédia, futuro da Chapecoense passa pela categoria de base

Grupo revela desejo de aproveitar aprendizagem adquirida com vítimas para trazer novas alegrias ao time da cidade

A dor e tristeza com a morte de 71 pessoas na queda do avião que levava a delegação da Chapecoense para a final da Copa Sul-Americana trouxeram junto a vontade de participar e ajudar a reerguer o clube também como forma de homenagear as vítimas. Para tanto, os exemplos já foram escolhidos: estão entre aqueles que perderam a vida na Colômbia. Os jogadores que levaram o clube ao seu maior momento com a final da Sul-Americana também tinham um outro lado: o de ajudar os mais jovens. Garotos das categorias de base do time catarinense relembram os bons momentos com os atletas do grupo principal mortos em Medellín e revelam o desejo de aproveitar a aprendizagem adquirida para trazer novas alegrias ao time da cidade, que hoje chora as perdas de seus ídolos.

Filho do ex-árbitro Carlos Simon, Ramiro Simon é zagueiro do time Sub-20 da Chapecoense. No clube desde o começo de 2016, ele participou de diversos treinos com a equipe principal no trabalho de integração da base com o profissional feito pelo clube. Simon não escondeu sua emoção ao lembrar-se dos jogadores mortos na Colômbia e revelou dicas recebidas, principalmente pelos zagueiros Willian Thiego, Filipe Machado e Neto, um dos sobreviventes do acidente.

“Subimos muitas vezes para treinar com os profissionais neste ano. O apoio que eles davam para nós da base era muito grande. É difícil achar um grupo assim. Eles nos ajudaram muito. Aprendi muito com eles. Quero conversar com os jogadores que sobreviveram, tinha muita coisa que gostaria de falar aos que morreram e me arrependo. Quero agradecer, pois realmente eu aprendi muito com eles”, contou Ramiro, que lembrou que os conselhos ajudaram a perder a insegurança nos primeiros treinos com os profissionais.

“Eu era muito inseguro quando vinha treinar com o profissional no começo. Depois do treino, eu ia de canto e perguntava ao Thiego, ao Felipe e outro zagueiros, o que eles tinham achado. Eles diziam: ‘Tu estás no caminho certo, treina a parte física, te dedica’. Aprendi muito com eles. Todos. Aprendi muito com eles e ainda me inspiro neles”, completou.

Meia habilidoso, Canhoto sempre gostou de observar como os jogadores da sua função atuam. Nos treinos com o time principal da Chapecoense ganhou um novo ídolo, alguém para se inspirar na sequência da carreira. Fã do holandês Robben, do Bayern de Munique, o garoto viu em Tiaguinho, apenas três anos mais velho, uma nova inspiração bem de perto. Ele agora quer trilhar os passos do jovem que foi um dos destaques da Chapecoense em 2016. “Sempre vi o Robben como espelho, porque sou canhoto como ele e jogo pela direita puxando para dentro.

Recentemente, nos últimos jogos que estava vendo, estava me espelhando muito no Tiaguinho. Ele era um jogador que estava conquistando tudo aqui no clube. Executava um bom futebol e eu me espalhava nele. Era um garoto muito bom. Vou levar ele sempre no meu coração. Vou tentar seguir os passos dele, que já tinha conquistado muita coisa. Ele foi como herói para lá, como todos”, contou Canhoto.

A tragédia que matou jogadores, dirigentes, membros da comissão técnica e funcionários do clube ainda está sendo assimilada pelos jovens. Em não raros momentos, durante os depoimentos, Ramiro e Canhoto ficaram emocionados ao lembrar da convivência. “Cheguei em fevereiro aqui e desde o início me apeguei muito com todos os jogadores do profissional. Não apenas os atletas, mas massagistas, fisioterapeutas, diretores. Eles eram pessoas muito queridas. Eu realmente estou com parte do meu coração destruído. Estou muito triste. E pensar que semana passada estavam todos aqui rindo e brincando. Não tem como entender. Tinha um carinho enorme por todos eles”, declarou, emocionado, Ramiro.

Canhoto também balança ao lembrar de momentos com o grupo profissional da Chapecoense. Ele destacou ainda os conselhos recebidos para ficar sempre tranquilo nos treinos e jogos, algo que tentará levar adiante na carreira. “Eles sempre falavam que a gente deveria ficar tranquilo, mostrar o nosso futebol e dar o nosso máximo que iria chegar ao profissional. Duas ou três vezes por semana treinávamos com eles. Eles não estão mais aqui, isso dói. Dói saber que eles não estão mais aqui entre nós, mas sabemos que um dia deixaram uma ajuda grande para nós. Levaremos para a vida toda isso”, afirmou.

Além dos conselhos, as brincadeiras também eram comuns na relação entre os jogadores do time profissional e os garotos da base. Ramiro Simon recorda que a profissão do seu pai era lembrada aos risos quando ele cometia faltas nos treinamentos. “Eles brincavam comigo. Quando eu treinava e fazia uma falta eles diziam: ‘Simon, mais uma falta? A regra é clara’”, contou Ramiro, em um dos poucos momentos de sorriso na conversa com a reportagem. “Que grupo fantástico era esse da Chapecoense”, finalizou logo em seguida. Os elogios estão guardados na memória dos garotos. “Um dia eu estava treinando de volante e dei uma caneta aqui. O Thiego gritou ‘Olha a marra’”, conta Ramiro, apontando para o local do gramado onde fez o drible.

O desejo de Ramiro Simon e Canhoto em jogarem no time principal da Chapecoense já vem sendo atingido por Lourency. Após se destacar no time Sub-20 em 2015, o atacante, de 20 anos, ganhou a oportunidade de subir ao plantel profissional no começo deste ano, ainda quando o time era comandado pelo técnico Guto Ferreira. Com Caio Jr. ganhou novas oportunidades e chegou a marcar um gol no Campeonato Brasileiro, na vitória de virada sobre o Fluminense no Rio de Janeiro, em setembro.

O jogador chegou a atuar em dois jogos da Copa Sul-Americana, ambos contra o Independiente, da Argentina. Nas últimas semanas havia retornado ao plantel Sub-20 para disputar as finais do Campeonato Catarinense, onde a Chapecoense buscava o primeiro título na categoria. Em razão disso, ficou fora do grupo que viajou para a Colômbia.

Ele lembra com carinho dos companheiros mortos. “Era todo mundo parceiro. Era o meu primeiro ano no profissional e foi bem legal porque eles me deram muita moral, a ajuda que precisava para seguir com confiança. Fiz vários irmãos, não apenas companheiros de trabalho, mas irmãos”, disse.

Fonte: Correio do Povo




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