Festa para os sentidos

Das praias da Côte d’Azur aos Alpes, a Provença, no sul da França, tem uma formidável galeria de paisagens para encantar os visitantes, enriquecida pelos perfumes da lavanda e pelos sabores únicos de sua culinária e de seus vinhos

É fácil entender por que tantas pessoas, de imperadores romanos a estrelas de Hollywood, deixaram-se seduzir pela Provença (Provence, em francês) a ponto de abandonar tudo e compulsivamente comprar uma casa nessa região do sul da França. São em geral pessoas de temperamento artístico, cuja alma sensível ficou intoxicada pela beleza da paisagem e pelos muitos charmes desse jardim do Éden que começa nas praias da Côte d’Azur mediterrânea e vai até o sopé das montanhas dos Alpes.

Nas cidades ou no campo, nas praias ou nas montanhas, cada ângulo da Provença parece literalmente saído da tela de algum grande mestre. Flores no peitoril das janelas, os imensos campos de lavanda violeta, de girassóis amarelos, de papoulas vermelhas, o casario de pedra ocre das cidades medievais, a explosão de cores e cheiros das frutas, verduras e temperos nas bancas dos mercadinhos, possuem todos uma marca inconfundível e sublime.

Poucos lugares têm a mesma capacidade de deslumbrar e tornar mais agudos os sentidos. Ela não é apenas a mais encantadora das regiões francesas, mas também a mais variada e surpreendente. Sua paisagem passa das florestas mais verdes de pinheiros mediterrâneos, abetos e sobreiros (a árvore da cortiça) até zonas quase desérticas. Seu clima pode ser benigno e, no momento seguinte, feroz. Ela é a terra dos ventos, e sobre todos eles reina o forte mistral, que sopra do norte, arrasta as nuvens para longe e responde pelo quase permanente céu turquesa da região.

A Provença possui metrópoles vibrantes, como Marselha e Nice; cidades universitárias e de arte, como Avignon e Aix-en-Provence, onde festivais culturais acontecem o ano inteiro; os resplandecentes e movimentados balneários da Côte d’Azur, como Saint-Tropez, Cannes, Saint-Raphael, Saint-Maxime, Juan-les-Pins e Antibes; tranquilos vilarejos medievais que parecem não ter percebido a passagem dos séculos.

Misturados nesse festival urbano e geográfico estão os cânions e desfiladeiros impressionantes das gorges do Verdon (gargantas do rio Verdon); as altas montanhas dos pré-Alpes; fazendas bem organizadas de olivais, vinhedos e frutas variadas; ruínas romanas, sarracenas e castelos de senhores feudais; colinas cobertas de flores silvestres; as planícies inundáveis da Camargue, onde o rio Ródano desemboca no Mediterrâneo e forma um delta que é abrigo de um sem-número de aves migratórias. E tudo isso concentrado numa área de cerca de 260 quilômetros de comprimento por aproximadamente 230 quilômetros de largura no sentido norte-sul.

Região disputada

A Provença foi a primeira província romana fora da Itália, e essa é a origem do seu nome. Após a queda de Roma, ela foi disputada por vários povos conquistadores, francos, sarracenos, senhores feudais, sendo finalmente dividida entre o reino da França e o papado. Os séculos de turbulência deram aos provençais um proverbial sentido da relatividade e da transitoriedade de todas as coisas. Como a passagem das estações do ano, o vaivém da política, dos exércitos e das guerras deu a esse povo a convicção de que não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe. Por isso, é mais sábio aproveitar aqui e agora as coisas boas que o mundo e a vida nos dão.

Em toda parte, encontra-se alguma coisa onde passado e presente estão perfeitamente fundidos. Em Orange pode-se assistir à ópera num anfiteatro romano sentado nos mesmos bancos de pedra onde romanos já se acomodavam antes do nascimento de Jesus. Em Arles, além da possibilidade de se passear por cenários imortalizados pelo pincel de Van Gogh, pode-se ouvir música num teatro de arena tipo coliseu onde gladiadores se enfrentavam há 2 mil anos, quando a cidade era uma das mais importantes do Império Romano.

Avignon foi sede da Igreja Católica Romana de 1309 a 1377, depois que o papa Clemente V deixou Roma devido às lutas pelo poder no seio da Igreja. Seu Palácio dos Papas é uma cidade dentro da cidade. Leva-se um dia inteiro para visitá-lo sem pressa, e fazê-lo é mergulhar em ambientes da Idade Média que chegaram intactos até os nossos dias. De todas as fases históricas, a medieval talvez seja aquela que está mais presente nas zonas urbanas da região.

As cidades-fortalezas dos montes da Provença central e do norte são testemunhas perfeitamente preservadas daqueles tempos dramáticos. Gordes, Le Baux, Roussillon, Moustier-Saint-Marie são exemplos desses villages-perchés – literalmente, “vilarejos empoleirados”, porque suas casas e edifícios de pedra pendurados no alto de montanhas e colinas parecem aves no poleiro. Edificadas ao longo da Idade Média, são cidadelas quase inexpugnáveis, onde as construções se espremem aproveitando cada espaço disponível, muitas vezes à beira de precipícios espantosos.

Hoje transformadas em polos artísticos, com constante programação de mostras de artes plásticas, música e dança, além de torneios esportivos, essas cidades muradas conseguiram durante vários séculos manter à larga todo tipo de invasor. A partir da década de 1960, porém, elas foram derrotadas por um novo tipo de intruso, contra o qual quaisquer defesas se revelaram inúteis: o turista.

Trimestre agitado

No verão, o turismo é intenso em toda a Provença. É uma das indústrias mais importantes da região, e conta com perfeita infraestrutura de hotéis, restaurantes, transportes e todo tipo de assistência ao visitante. Mas quando os meses quentes (junho, julho e agosto) terminam, desaparece também o turismo de massa. As cidades retomam seu ritmo habitual de vida sabiamente cultivado ao longo dos séculos. Os provençais voltam a conversar nas ruas, a escolher tranquilamente suas frutas e verduras nos mercados, a ler seus jornais nos cafés. E a dedicar-se à pétanque, o esporte preferido dos provençais.

Jogo de desafio e de honra, de prática exclusivamente masculina, a pétanque é uma partida de arremesso de bolas metálicas similar à bocha italiana. Os torneios são realizados em toda parte, ao ar livre, diante de um público gozador que não perde o menor lance para arremessar chistes, piadas e impropérios aos jogadores menos afortunados. Aos domingos, depois da pétanque, começa o ritual do almoço provençal. O aioli é o prato oficial dessas reuniões de amigos e familiares, sobretudo no verão.

É feito de peixes, frutos do mar e legumes cozidos e comidos com um molho cremoso à base de alho, azeite de oliva e várias especiarias regionais. O aioli pode ser substituído pela adola, a carne de panela à provençal, outro prato muito popular. Ou pela bouillabesse, sopa que se prepara com peixes de água doce temperados com azeite de oliva, cebola, alho-poró, alho, tomates sem pele e sem sementes, plantas aromáticas e especiarias.

A riquíssima cozinha provençal possui um invejável ás de ouro: as trufas. Esse tubérculo cobiçado pelos gastrônomos possui sabor e perfume únicos. Nasce à sombra dos bosques provençais e, embora sua colheita aconteça nos meses frios, de novembro a março, pratos à base de trufas são encontrados durante o ano todo nos restaurantes locais.

Respeito à terra

Há dicionários inteiros dedicados aos vinhos provençais. Só a lista dos melhores Côtes de Provence, Côtes du Rhône, Châteauneuf-du-Pape e do supercélebre Bandol ocuparia muitas páginas. Mas o melhor, quando o assunto são vinhos, é degustá-los, de preferência no lugar de origem.

A Provença é uma região agrícola generosa, onde os moradores aprenderam a respeitar a terra, a dialogar com ela e a extrair dela o que há de melhor, em trufas, cerejas, melões, azeitonas de todos os tamanhos e sabores, vinhos, queijos, pães e… perfumes. Os imensos campos de lavanda, que na primavera e no verão cobrem os campos com tons de roxo, violeta e azul, tornaram-se cartões-postais da região. Um símbolo merecido, pois é nos perfumes que o provençal melhor soube usar seu talento para desfrutar dos dons da natureza.

Os principais campos de lavanda encontram-se nas imediações de Valenzole, Moustier-Sainte-Marie e Simiane-la-Rotonde, na Provença central. Mas é a bela cidade medieval de Grasse, construída sobre uma colina a poucas dezenas de quilômetros dos balneários de Cannes e Antibes, a capital nacional dos aromas. Em Grasse, como em toda parte na Provença, há lojas especializadas em produtos de cheiro cujos aromas podem ser detectados a centenas de metros de distância.

Se os cheiros da Provença inspiraram os melhores perfumistas da França, o mesmo fizeram suas paisagens para os pintores. Van Gogh, Matisse, Renoir, Chagall, Picasso, Cézanne são apenas alguns deles. Um dos roteiros turísticos favoritos é justamente visitar os lugares que inspiraram obras importantes desses pintores. E viver a mesma emoção que eles viveram e interpretaram em seus quadros: o encontro, à luz brilhante do sol do Mediterrâneo, com as formas, as cores e os cheiros da Provença.

Várias provenças a conhecer

Vários voos diários ligam Paris a Marselha e Nice. Há também trens diários da capital para cidades provençais, inclusive o super-rápido TGV. Pode-se também chegar lá de ônibus ou carro. As melhores estações são a primavera e o outono. Dentre os roteiros mais conhecidos para a região, um permite visitar toda a costa; outro leva aos mais belos vilarejos do interior; o “roteiro ecológico” cruza campos e montanhas; já o roteiro dos pintores visita lugares que inspiraram artistas célebres.

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Fonte: Revista Planeta




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